quarta-feira, 16 de março de 2016

Shigatsu wa Kimi no Uso (2014-2015)

MAAAAAAAAS NUNCAAAA que eu veria esse anime baseado no que ele aparentava ser.


O prodígio pianista Kousei Arima dominou a competição musical e se tornou famoso entre os músicos infantis. Depois da morte de sua mãe, sua instrutora, ele teve um colapso mental durante a realização de um recital de piano quando tinha apenas onze anos. Como resultado, ele não é mais capaz de ouvir o som do seu piano, embora sua audição esteja perfeitamente boa. Dois anos depois, Kousei não toca mais piano e vê o mundo em monótono, sem qualquer talento ou cor. Ele resignou-se a viver a sua vida com seus bons amigos, Tsubaki e Watari, até que, um dia, uma menina muda tudo. A linda Kaori Miyazono, uma violinista de espírito livre cujo estilo de tocar reflete sua personalidade, ajudando Kousei a regressar ao mundo da música e mostrar que ele deve ser livre e quebrando o molde ao contrário do estilo estruturado e rígido que Kousei estava acostumado. Fonte: Wikipédia.

Shigatsu wa Kimi no Uso (Sua Mentira em Abril), também conhecido no ocidente como Your Lie in April é uma série de mangá escrita e ilustrada por Naoshi Arakawa. A adaptação do anime foi feita por A-1 Pictures, onde estreou dia 9 de outubro de 2014 no bloco NoitaminA da Fuji TV e encerrou em 19 de março de 2015. O mangá tem 11 volumes, enquanto que o anime tem 22 episódios. 

Na verdade não. 














Quando eu bati o olho em Shigatsu wa Kimi no Uso pela primeira vez, eu quis passar bem longe. Mesmo o mangá sendo tão elogiado, algo me dizia que seria mais uma daquelas histórias bobinhas de colegiais, inserido com o máximo de clichês possíveis. Porém, essas barreias se quebraram quando resolvi acompanhar do começo ao fim o anime, por mais que fosse extremamente ruim - na maior das hipóteses. E eu mais uma vez quebrei minha cara. 

A obra é toda moldada para conquistar o público mais atual. Tem uma abertura e encerramento bem chiclete, têm pitadas de humor pastelão comum em comédias românticas, tem o visual dos personagens mais tradicionais possíveis, e tem aquele ar de triângulo amoroso que as otakas gostam. No entanto, tudo isso nada mais é do que uma casca que cobre a verdadeira joia da obra. Se formos imergidos pelo menos nos 5 primeiros episódios, logo a máscara cai, revelando assim, uma camada mais funda escondida. 

Arima, o jovem protagonista, deve filosofar junto com seus amigos sobre a questão de superação, tanto psicológica como ''física'' do seu passado. Sim, você não leu errado. Eu também fiquei surpresa quando saquei isso. Não esperava uma abordagem tão poetizada das situações, foi impossível não associar a mesma experiência com os filmes de Makoto Shinkai. Embora, aqui em Shigatsu wa Kimi no Uso a linguagem filosófica seja mais explícita, ainda sim, se nota que o clima são quase parecidas. Algumas coisas se distanciam muito uma da outra como o alívio cômico imposta em cada uma, mas algumas se assemelham como a caracterização dos cenários por exemplo, que estão lindas e impecáveis, assim como as obras de Makoto. 

Dito isso, fica aqui os meus parabéns ao estúdio A1-Pictures por nos proporcionar algo perto do perfeccionismo, visualmente falando. Tanto em questão de cenários bem construídos, como no jogo de marketing, ao chamar a atenção da galera com uma animação tradicional de anime de temporada, para assim, revelar aos poucos sua outra face não tão convencional. 

E falando ainda de visual, eu gosto muito das figuras de linguagens que a obra usa para contar mais sobre os personagens, e os sentimentos dos mesmos. O gato preto que aparece constantemente representando o passado de Arima Kousei, é só uma delas. Em Shigatsu no Kimi no Uso, vale tudo, até uso de cores, para revelar um outro ponto de vista mais aprofundado das situações. Vale também ser imergido dentro da cabeça do protagonista em pleno concerto de piano para explicar o que se passa com ele. A obra não teve medo em momento algum em ser tão clara com seu objetivo. Pelo contrário. Parecia que a  cada episódio era visto como um desafio para os produtores; 1° em ser mais fiel possível ao mangá, em 2° poetizar na cara dura sem medo de ser feliz. Tendo essas duas metas na cabeça, dá pra se afirmar que foi uma boa escolha do diretor Kyohei Ishiguro, junto com o roteirista Takao Ishioka. Gosto de quem sabe o que é bom na obra original e transcreve isso bem nas telas.

Uma das metáforas citadas. Arima nas sombras, representando seu estado de espírito perturbado pelo passado,  e Kaori sobre a luz representando a saída, o  convite para a superação. 

Eu confesso que a primeira audição de Arima e Kaori me deu um grande tapa na cara neste sentido poético, mas não deixa de ser irritante as constantes ''é como'' toda hora ou o clássico ''é como se eu estivesse no fundo de um oceano escuro onde não consigo ouvir nada'' que irá se repetir outras vezes mais.  Sabe ... um intervalo de uma frase para a outra seria bom ás vezes. O episódio 4 é o grande auge disso. É bonito? é. Mas senti falta de um ''break'' pra uma frase profunda de outra. Ainda bem, que isso não se repete constantemente, apesar que as pausas de tensão que a série oferece é a comédia mais cliché possível. Ainda sim, é melhor do que ficar ouvindo frases de efeito uma atras da outra, sem um pouco de alivio.

Atenção spoilers a seguir! (Comentários sobre o final)

Eu achei que o grande X da questão seria o trauma de Arima Kousei com o seu passado. Conforme a história passa, a gente percebe que o buraco é mais embaixo. Desde o começo, a série nos dá pistas de que Kaori tem um problema de saúde, só que eu, cabeça de jiboia, não dei muita importância. Quando eu tive um vislumbramento de que ela poderia vir à falecer no final, a experiencia deu uma guinada 360°. Logo, toda aquele louvor negativo em cima do psicológico de Kousei, recebe uma carga ainda maior por cima. Na hora, deu a entender ser uma situação bastante forçada. Pareceu então, que todo aquele tempo, a obra estava se esforçando pra que eu chorasse, impondo filosofias óbvias para as pessoas perceberam rapidamente o quão profundo era suas emoções. E como a série vai até as últimas consequências de seus atos, ela vai fundo ao matar uma das protagonistas, para dramatizar ainda mais o sofrimento de Kousei. Pensei comigo ser uma nova versão de Ano Hana. Mas foram tudo conclusões precipitadas. 

O final, com tudo engatilhado para tirar Kaori da história, eu ainda sim, acreditava até o fim, que seria possível que ela sobrevivesse. Custei acreditar que realmente ela iria morrer. A primeira metade do episódio final, com a apresentação perfeita (só assim pra ele tocar bem né) de Arima Kousei, todo choroso, com direito a metáforas do céu e tudo, com ela se despedaçando e se desintegrando de seu corpo e tudo mais, foi a maneira certa de anunciar a morte da personagem. Eu gostei da choradeira e de toda a dramatização, porém, até a metade. Depois que mostra o que acontece com ele após a morte dela, achei bem supérfluo. A carta que ela deixa, explicando tudo, poderia muito bem ser revelada com ela dizendo pessoalmente, antes de bater as botas. Não gostei dela ter segurado a sua mentira até os últimos minutos - embora assim o título ''Sua mentira em Abril'' faça sentido. Seria muito mais interessante, se ela tivesse esse momento de libertação ainda em vida. Só acho. 

Eu gosto do fato de que Shigatsu wa Kimi no Uso leva tudo até as últimas consequências. Assim como uma mentira. Nesta perspectiva, o desfecho foi fantástico. 


Enfim. Shigatsu wa Kimi no Uso é bom. Eu diria até que é acima da média. Gostaria de comentar mais sobre, falar sobre os outros personagens, mas não quero me estender muito. Por fim, devo frisar que não é todo dia que a gente pode ver uma série como essa. Que surpreende, e que não tem medo de ser direta. Que joga na sua cara o óbvio muitas vezes, no entanto, não deixa de ser ruim porque a intenção dele é ser transparente com o que ele quer ser. Shigatsu chegou no destino almejado, isso não tem o que discutir. A vida de Arima explorada de maneira filosófica, a superação, o olhar sincero, as marcas da música, as marcas do trauma, os encontros e desencontros da vida, da esperança e da frustração, todas elas só tiveram o que acrescentar na obra de forma positiva.  Entrou para o meu top romances favoritos da vida, mesmo que o romance seja apenas um recurso para explorar outras questões. Ainda sim, a obra faz ótimo uso dela. E é isso que importa no final das contas, para mim.


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